quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Aula 6 - Introdução a Lógica

1-Introdução
    Como vimos, o predicável é o que se diz do sujeito. Como os predicáveis não possuem realização fora do indivíduo, mas na inteligência que o conhece, depreende-se que os predicáveis não são entes reais, mas sim entes lógicos. Isso não significa que eles sejam falsos ou que não correspondam a realidade. O predicável é apenas o meio de que a inteligência dispõe, ao analisar um objeto, para discriminar suas propriedades.
    Contudo existe uma outra forma de classificação, os atributos reais do sujeito.

2- Os Predicamentos
    Os predicamentos, ao contrário dos predicáveis, são entes reais. Em outras palavras, os predicamentos são modos de existência. Assim, os modos de existência são dois:
  • Substância - Existe em si mesmo
  • Acidente - Existe em outro ser
Por isso dizemos que "leão" existe em si mesmo, é substância. Mas vermelho é acidente, já que apenas existe em outro. Daí leão vermelho é um termo para explicitar o acidente de um ser(cor).

2.1- Os acidentes
    Os acidentes existem em outros seres de diversas formas. Aristóteles cita, pelo menos nove modos de existir em outro ser.
  1. Qualidade
  2. Quantidade
  3. Relação
  4. Ação
  5. Paixão
  6. Localização
  7. Posição
  8. Situação no tempo (presente, passado ou futuro)
  9. Ter
Apesar de Aristóteles ter suscitado 9 categorias de acidentes, Jolivet afirma[1] que essas categorias são passíveis de melhoria, podendo-se hipoteticamente adicionar a categoria "movimento"

3- Acidente predicável e acidente predicamento
    Se volvermos ao texto anterior (Aula 5), poderemos relembrar que entre os predicáveis havia um classificado como acidente. Da mesma maneira, há um predicável classificado como acidente, ou melhor existem 9 predicamentos que são acidentes. Também vimos que os predicáveis são de ordem lógica e os predicamentos são de ordem real, assim há que de distinguir entre o acidente tido como predicável e o acidente tido como predicamento.
     O acidente predicável se opõe ao "próprio" (quinto predicável), já o acidente predicamento se opõe à "substância".

4- Pré-predicamentos e pós-predicamentos
4.1- Pré-predicamentos
    Os pré-predicamentos são, como diz Aristóteles, preâmbulos à teoria dos predicamentos e se manifestam sob a forma de distinções.
a)É preciso distinguir entre o que se diz e o que existe;
b)É preciso distinguir entre ser dito de um sujeito e estar em um sujeito;
c)Coisas que estão em um sujeito e se atribuem a ele
d)Coisas que não estão no sujeito e não estão no sujeito
4.2- Pós-predicamentos
    Os pós-predicamentos são as propriedades dos predicamentos
a)Oposição e suas espécies
  • Relação 
  • Contradição
  • Privação
  • Contrariedade
b)Prioridade e suas espécies
  • Tempo
  • Conhecimento
  • Dignidade
  • Natureza
  • Causalidade
c)Simultaneidade
  • De tempo
  • De natureza
d)Movimento

5- Conclusão
    Embora pareça meramente teórico, o conhecimento dos predicamentos pode alicerçar todo o discurso lógico.
   Primeiro, pois se distinguimos corretamente os entes de razão (predicáveis) dos entes reais (predicamentos) podemos ter a noção completa do que se está raciocinando. Afinal, quando um termo é tomado em sentido de predicável, devemos considerá-lo como tal.
     Segundo, pois se tivermos noção dos pré-predicamentos, teremos o domínio completo do discurso lógico, isto é saberemos distinguir os termos.
     Terceiro, se soubermos a natureza dos pós-predicamentos, como a contradição, poderemos conduzir o discurso evitando ou facilitando conclusões.
     Quarto, pois é necessário que todo o discurso tenha valor racional e isso só se pode ao esmiuçar os termos, expressões verbais da idéia.
6-Bibliografia
[1]Jolivet, Regis - Logica (pág 66)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aula 5 - Introdução à Lógica

"Mox de generibus et speciebus illud quidem sive
subsistunt sive in soles nudisque intellectibus posita sunt,
sive substantia corporalia sunt an incorporalia,
et utrum separata a sensibilibus an in sensibus posita et circa
ea constantia, dicere recusabo."
Porfírio

1- Introdução

Com o fim das explanações introdutórias anteriores, damos sequência a uma importante questão para o Realismo Moderado: os predicáveis.
Toda noção da filosofia realista parte do princípio da inteligência humana e das leis que a regem. Por determinar que a inteligência humana funciona através de idéias,  considerações sobre idéias são sempre presentes na filosofia realista.
Já esboçamos anteriormente a diferença entre o Realismo Moderado e as outras correntes filosóficas no primeiro post. Resta agora especificar clara e minuciosamente a lei que determina ser a idéia exatamente a expressão mental da realidade.
Insistimos em dizer que o raciocínio opera por idéias. A proposição é uma operação intelectual que utiliza idéias como meios. Ex.: O mar é azul.
Na proposição de exemplo existem pelo menos duas idéias abstratas; a de mar e a de azul. Atribuindo-se azul ao mar através do verbo ‘ser’, estamos mencionando uma das características desse ser ‘mar’ que é o ser ‘azul’. Como tal proposição se dá no pensamento, segue-se que temos uma idéia mencionada de outra idéia.
Podendo uma idéia se referir a outra, deve-se considerar duas possibilidades:[1]
  • Afirmam algo de um sujeito em função da extensão. São os predicáveis que existem em número de 5.
  • Afirmam algo de um sujeito em função da compreensão. São os predicamentos, que existem em número de dez.
As duas possibilidades são chamadas de universais.
Ainda, Gardeil no seu tratado de lógica, afirma que o predicável é algo que possa ser encontrado em muitas coisas. E de fato, ‘azul’ pode se encontrar não só em mar, como no céu e em tantos outros seres. [2]
Já discutimos anteriormente sobre a extensão e a compreensão. Vide aqui.

2- O Predicável

O predicável é a maneira pela qual uma coisa pode ser dita pelo sujeito. [3] Também podemos chamar o predicável de universal reflexo, pois não passa de um objeto de ato de reflexão. Isso, pois somente a reflexão pode ‘separar’ o azul do mar e na proposição enunciar tal característica de mar, econtrada por fruto da sua reflexão.
Como se notou na árvore de porfírio, o gênero é determinado por uma diferença específica. Assim é que corpo se diferencia em corpo vivo e corpo não vivo (ex.: o vegetal e a pedra) através do fator ‘vida’.
As diferenças específicas são em númerode cinco:
  • Gênero (ou essência determinável): Universal relativo a seus inferiores especificamente diferente um dos outros aonde sua essência é exprimida de maneira incompleta. Ex.: O homem é animal. O cachorro é um ser vivo.
  • Espécie (ou essência determinada): Universal relativo a seus inferiores que exprime completamente sua essência. Ex.:O cão é um ser vivo sensível.
  • Diferença Específica (ou essência determinante): Universal relativo a seus inferiores que exprime sua qualidade essencial. Ex.: O homem é animal(1) racional.
  • O próprio: Universal relativo a seus inferiores como qualidade necessária. Ex.: O homem é capaz de rir.
  • O acidente: Universal relativo a seus inferiores como qualidade contingente. Ex.: Tomás é filósofo.
(1)Animal –> ser vivo sensível
(2)Contigente –> Pode ser ou não ser.
Segundo Jolivet, os universais não são coisas ou objetos de atribuição, são primeiramente entes de razão. Ao deparar com essa afirmação, pode-se perguntar imediatamente se o animal (ser vivo sensível) é apenas um ente de razão. O problema implica na questão da atribuição, aonde o universal é um modo de atribuição e não a coisa propriamente. Quando atribuo a tal ser o predicado ‘animal’, apenas exprimo desse ser sua categoria de existência. Se o ente de razão é o ente realizável apenas na inteligência, isso significa que não podemos apontar em uma direção na floresta e dizer: “Veja o animal enquanto tal.” Apenas podemos apontar em direção a um ser que possui dentre algumas características algumas que são comuns a outros seres exprimidas, ‘embaladas’ numa idéia que é a idéia de ‘animal’. Tanto é que a idéia de animal se extende a gato, a rato, a homem e a pólipo.

3- Conclusão

A língua opera exatamente por predicações. Por isso, no estudo da língua temos o sujeito e o predicado. Contudo no estudo da linguagem sujeito e predicado só são observados enquanto ferramentas da linguagem, mas ignorados enquanto seres ontológicos que são. Na realidade, a língua é apenas o sinal sonoro da idéia e tentamos por meio da língua, comunicar ao exterior o que o pensamento já estruturou. Ainda assim, não são os predicáveis meros exercícios de abstração. São mesmo a expressão do real que a inteligência agrupa e a língua exprime da forma de texto. Mais tarde discutiremos tal assunto precisamente.
A importância de se conhecer sobre os universais advém da necessidade de se colocar as proposições e inferências delas retiradas a devida realidade e aguçar a inteligência em direção da verdade, que sem a análise minuciosa da proposição e de seus universais não seria possível.

4- Bibliografia:

[1] Collin, Enrique – Manual de FIlosofia Tomista; Tomo I – pág 28
[2] Gardeil, H.D. – Introdução a Filosofia de São Tomás de Aquino; pág 206
[3] Jolivet, Regis – Tratado de Filosofia; Lógica – pág 63

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Aula 4 - Introdução à Lógica

1-Introdução
As idéias enquanto representação dos objetos podem atingir um determinado número de seres tanto internamente quanto externamente. Atingidos, podemos classificar tais seres em relação de compreensão e extensão.
2-A compreensão x Extensão
a)Compreensão
A definição de homem é animal racional. Tanto a idéia de animal quanto a idéia de racional tem seus significados próprios e independentes. Ambas se juntam para formar a idéia de homem. Nesse caso tanto animal quanto racional, estão compreendidos na idéia de homem. Assim sendo, podemos dizer com Jolivet, que a compreensão é o conteúdo de uma idéia.[1]
b)A extensão
A definição de homem é animal racional. Essa definição se aplica a Aristóteles, a Tomás de Aquino, a Brähms, a Paulo, a João, a Zumbi dos Palmares... Assim sendo, esses seres aos quais essa idéia se aplica formam a compreensão da idéia. Segundo Jolivet, extensão é o conjunto de seres aos quais tal idéia convém.[2]
2-Relacionamento
Quanto mais objetos compreenderem uma idéia, a menos seres tal idéia se extende. Assim é que a compreensão está na ordem inversa da extensão.
A idéia de animal se extende a diversos seres vivos, a medida que associamos a idéia de racional a idéia de animal, diminuímos os seres aos quais tal idéia convém. E se ainda adicionarmos a idéia de oriental (animal racional oriental -> Homem oriental) reduzimos ainda mais a extensão da idéia. Fazendo isso sequencialmente, chegaremos ao indivíduo. Percebe-se que o conteúdo, isto é, a compreensão da idéia vai aumentando em ordem inversa a sua extensão. Assim, pode-se concluir que a idéia de ser é a idéia mais extensa que existe e também a mais despojada de todas.